Tragédia de Mariana: pesquisas analisam processos jurídicos e ponto de vista de ex-funcionários

Após o rompimento da barragem com rejeitos de minério de ferro localizada na cidade de Brumadinho, Minas Gerais, operada pela empresa Vale S.A, no último dia 25 de janeiro, o Conselho Universitário da Ufes divulgaou uma moção (leia na íntegra) lamentando o fato e oferecendo a colaboração de seus pesquisadores. 

Diversos estudos foram realizadas pela Ufes após o rompimento da Barragem do Fundão, em Mariana (MG), em novembro de 2015. Foram criadas duas frentes de atuação, uma com enfoque socioambiental e outra voltada para aspectos físicos do tratamento dos rejeitos que atingiram o Vale do Rio Doce, chegando ao litoral capixaba.

Duas dessas pesquisas foram retratadas na reportagem "Mariana: pesquisas abordam perspectiva jurídica e social", na 9ª edição da Revista Universidade .

Poder Judiciário

No Programa de Pós-Graduação em Direito Processual, Arthur Lopes Lemos defendeu a dissertação de mestrado “O caso Samarco e a participação na tutela coletiva: não-dominação, esfera pública e poder judiciário”. O pesquisador analisou se os afetados pelo desastre puderam exercer o direito de voz, expor seus argumentos, interesses e pontos de vista nos processos judiciais.

“A possibilidade de participação na tomada de decisões é requisito necessário para a justiça da decisão. O cidadão deve ser vigilante e ter voz de contestação nos processos. Caso contrário, o processo será fonte de dominação”, explica Lemos.

"O Poder Judiciário deve ser visto como uma instituição republicana que tem no processo o seu principal, senão o único, instrumento de acesso por minorias ao debate democrático”, completa o pesquisador, que citou em seu trabalho exemplos de participação bem-sucedidos e outros que podem ser melhorados.

Representações sociais

A outra dissertação abordada na reportagem foi defendida pela psicóloga Paula Bortolon, no Programa de Pós-Graduação em Administração, intitulada “A Samarco e o desastre de Mariana (MG): um estudo em representações sociais a partir da perspectiva dos ex-funcionários da Samarco”.

A pesquisadora analisou as representações sociais da Samarco e do desastre ocorrido em Mariana com 10 ex-funcionários que aderiram ao Programa de Demissão Voluntária (PDV). “Entendemos como representações sociais o conjunto de explicações, crenças e ideias que permitem lembrar um dado acontecimento, pessoa ou objeto”, explica.

Os resultados da pesquisa evidenciaram que, para os trabalhadores que pertenciam à área administrativa, a representação social deixou de ser positiva e se tornou uma negativa, uma vez que passaram a identificar a empresa como negligente.  Já para os que atuavam nas áreas de operação, saúde e segurança, observou-se um grande esforço para a manutenção da sua representação social como positiva, considerando o desastre um evento acidental.

“A percepção do desastre como um fenômeno acidental mostrou-se construída sobre o simbolismo positivo da Samarco presente naquele discurso social. Em contrapartida, o entendimento de que o desastre foi resultado de uma postura negligente da mineradora mostrou-se ancorado em questões individuais, associada a contextos sociais, culturais, ideológicos, crenças e valores, e a influência de grupos e dos meios de comunicação de massa”, destaca Bortolon.

 

Texto: Lidia Neves e Jorge Medina
Foto: Jorge Medina
Edição: Thereza Marinho

 

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