Na Associação Quilombola de Córrego do Palmito, em Jaguaré, município do norte do Espírito Santo, Joselma Martins, 51 anos, já percebe no dia a dia aquilo que a ciência aponta há anos: os efeitos climáticos, cada vez mais extremos, estão interferindo no cultivo das famílias que moram no local.
No quintal produtivo da família, planta-se mandioca, pimenta-do-reino, corante, feijão, entre outros. A produção é para consumo próprio, mas o que sobra é comercializado. Ela explica que, na época do avô, a plantação seguia o ciclo da lua, porque a estação de chuva tinha data certa. “Agora, não temos mais essa precisão. A única solução é a pequena irrigação, mas quando esquenta demais, nem isso adianta. Dependendo da situação, existe o risco de a gente perder toda a produção, o feijão é o maior problema”, conta.
A história vivida por comunidades como a de Joselma Martins é apenas uma, entre tantas outras, que revela no dia a dia os efeitos concretos da crise climática no Brasil, com impactos diretos na saúde e na produção de alimentos. É dentro desse contexto que a Ufes sedia nos dias 7 e 8 de maio o Mutirão Sustentável, formação em ação climática que será realizada no Auditório Manoel Vereza, no Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas (CCJE), no campus de Goiabeiras.
O evento é gratuito e reunirá representantes de comunidades tradicionais, juventudes, agricultores familiares, lideranças locais, academia e poder público, com foco no desenvolvimento sustentável e na justiça climática. A proposta é fortalecer a atuação desses grupos a partir da conexão entre saberes e mecanismos de ação de forma global. As inscrições podem ser feitas por meio deste formulário.
A programação terá início às 13 horas desta quinta-feira, 7, e inclui atividades formativas, debates e dinâmicas colaborativas, valorizando os saberes dos territórios e fortalecendo redes locais comprometidas com o desenvolvimento sustentável. A iniciativa dá continuidade a um primeiro encontro realizado em novembro do ano passado, ampliando agora o engajamento e a participação social.
Ação coletiva
O projeto é coordenado pela Plataforma CIPÓ, em parceria com a Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), e viabilizado por emenda parlamentar da deputada federal Jack Rocha.
A diretora-executiva da Plataforma CIPÓ, Maiara Folly, explica que a COP30 abriu uma janela para a ação climática no plano global e o Mutirão Sustentável busca manter esse legado vivo por meio do impulso à ação coletiva nos territórios. “Ao valorizar as experiências do Espírito Santo, a iniciativa aposta na ampliação da articulação entre a agenda climática internacional e soluções já em curso em nível local, ampliando sua visibilidade e suas possibilidades de fortalecimento e replicação", frisa.
Eventos extremos
Dados do MMA mostram que os eventos extremos estão se intensificando no país, com secas prolongadas, chuvas intensas, enchentes e ondas de calor, além de crises hídricas e energéticas cada vez mais frequentes.
Essa tendência já aparece de forma clara nos números. Só em 2023, segundo o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), cerca de 16 milhões de pessoas foram afetadas por desastres climáticos no Brasil. No Espírito Santo, os impactos seguem a mesma direção. O estado está entre os mais vulneráveis a desastres, com alta exposição a enchentes, secas e incêndios florestais. Além disso, o litoral capixaba aparece entre os mais afetados por extremos de temperatura no Brasil.
Universidade Federal do Espírito Santo