Uma escultura histórica que integrou o conjunto artístico da região do Palácio Anchieta, no Centro de Vitória, deve voltar ao espaço público após quase cinco décadas. A peça, que representa o deus Hermes, foi localizada após investigação conduzida pelo professor e historiador Raphael Teixeira, com colaboração de pesquisadores do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (Leena/Ufes).
O desaparecimento da peça ocorreu no final da década de 1970. Após ser danificada pela queda de galhos de uma árvore durante uma forte chuva, a escultura foi retirada para restauração, não retornou ao local de origem e, com o passar dos anos, a ausência de registros dificultou a localização da obra. O Catálogo de Monumentos Históricos e Culturais da Capital, publicado em 1992 pelo pesquisador Willis de Faria, por exemplo, já não mencionava a escultura, o que indica que seu desaparecimento é anterior à publicação.
A investigação foi retomada em 2018, quando Raphael Teixeira iniciou uma busca sistemática por informações sobre o monumento após encontrar referência ao desaparecimento de um suposto busto de Hermes na Praça Cecília Monteiro. “Até então eu nunca tinha ouvido falar desse busto, mesmo tendo participado de aulas de campo no Centro durante a graduação em História, na Ufes”, relata o pesquisador, que durante as investigações procurou o Leena/Ufes em busca de apoio para identificar a obra, localizar registros históricos e avaliar a possibilidade de realizar uma réplica em três dimensões (3D).
Com o avanço das pesquisas, os investigadores constataram que o objeto citado em registros antigos não era um busto, como se imaginava inicialmente, mas uma escultura completa. Segundo o coordenador do Leena e professor do Departamento de Artes Visuais (Dav/Ufes), Aparecido José Cirilo, a confusão sobre a tipologia da obra (se seria apenas uma cabeça ou um corpo inteiro) foi um dos fatores que dificultaram as buscas por décadas. O cruzamento de informações históricas e a análise de registros disponíveis permitiram confirmar a existência da obra e identificar a peça desaparecida, localizada no quintal de uma residência.
Patrimônio cultural
Cirilo explica que reencontrar a escultura tem importância para a memória urbana e para a preservação do patrimônio cultural da capital. “Chegar até essa escultura é recolocar na nossa cidade, no nosso estado e na nossa cultura uma peça extremamente importante. Ela pode não ser excepcional do ponto de vista escultórico, porque é uma peça em mármore de carrara, produzida em série em determinada época, mas marca um momento fundamental da história do Espírito Santo e do processo de urbanização da capital capixaba no início do século XX”, avalia.
De acordo com o professor, a escultura integra o conjunto de alegorias pensado para a região central da cidade. Nesse contexto, Hermes (“divindade associada ao comércio e às negociações”) reforça a simbologia urbana atribuída ao espaço, especialmente em uma cidade cuja formação histórica está ligada à atividade portuária e comercial. “Essa escultura faz parte de um projeto arquitetônico e paisagístico pensado para aquela região do Centro de Vitória. A recolocação da peça ajuda a restituir a integridade desse conjunto histórico”, afirma.
Registro e documentação
Além da pesquisa histórica, o trabalho do Leena envolve a documentação técnica da escultura. O laboratório deverá realizar registros fotográficos e escaneamento em 3D da peça, gerando uma cópia digital que poderá contribuir para estudos e ações de preservação e restauro do patrimônio. Cirilo destaca que um dos desafios do restauro será lidar com as sucessivas camadas de oxidação e repintura que a peça sofreu ao longo das décadas, o que acaba escondendo o refinamento original dos detalhes.
Segundo ele, o objetivo é produzir um registro digital fiel da escultura, por meio de fotografias e escaneamento em 3D, que possa subsidiar futuras intervenções de conservação. “Quando essa peça voltar para a praça, queremos que as pessoas olhem para ela e entendam que ali está um símbolo da identidade da cidade. Não é apenas uma escultura: é parte da história de Vitória sendo reconstruída”, conclui o coordenador do Leena.
A retirada da escultura e seu encaminhamento para reinstalação estão previstos para ocorrer ainda neste semestre, no contexto das obras de reestruturação da Praça Cecília Monteiro.
Fotos: Leena/Ufes
Universidade Federal do Espírito Santo