Ciência e Carnaval: tese de professora da Ufes é usada em pesquisa para samba-enredo da Paraíso do Tuiuti

12/02/2026 - 14:17  •  Atualizado 12/02/2026 14:59
Texto: Sueli de Freitas
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Quando a escola de samba Paraíso do Tuiuti pisar na Marquês de Sapucaí no Carnaval 2026 com seu enredo Lonã Ifá Lukumí, assinado pelo carnavalesco Jack Vasconcelos, a produção acadêmica da professora da Ufes Leonor Franco de Araujo estará presente na passarela do samba do Rio de Janeiro. A tese de doutorado de Araujo, docente do Departamento de História da Ufes, intitulada Sistema Filosófico de Ifá, foi uma das bibliografias utilizadas para a construção do samba-enredo da Tuiuti.

“Eu digo que é o melhor uso que poderia ser feito da minha tese”, afirma a professora, destacando que, quando um tema é escolhido por uma escola de samba, ele ganha relevância e desperta a curiosidade do público em conhecer o enredo a fundo. “Fiquei muito feliz que o meu texto tenha sido apropriado pelas comunidades negras do Brasil”, acrescentou.

Araujo lembra que, assim como a produção científica, a construção de um enredo requer muita dedicação e pesquisa: “A partir de documentos com base científica, monta-se uma narrativa trazendo matizes das culturas com toda sensibilidade e beleza que o Carnaval expõe para o mundo”.

As crenças e tradições que serão retratadas na passarela do samba carioca abrem espaço para que temas importantes, como escravização dos negros, diáspora africana, resistência, ancestralidade e circulação de saberes, sejam debatidos na sociedade brasileira.

Conheça outras pesquisas desenvolvidas pela Ufes no site da Revista Universidade.

Inspiração

A tese de Araujo, apresentada em 2023 ao Programa de Pós-Graduação Multi-Institucional em Difusão do Conhecimento da Universidade Federal da Bahia (UFBA), foi inspirada nas antepassadas da professora, referenciando a sua ancestralidade africana. No texto, ela fala de Ifá, um sistema filosófico que originou oráculos africanos de origem iorubá, “que mantém, preserva e cria um conjunto de saberes e práticas para a manutenção do equilíbrio, fundamental para o bem viver dos povos de matrizes africanas”.

A pesquisa trata do culto de Ifá nas vertentes afro-cubana, nigeriana e de Benin. “É uma pesquisa inédita no Brasil; busquei falar de Ifá como tradição cultural do povo iorubá e sua relação com as religiões de matrizes africanas no Brasil, especialmente o candomblé”, afirma Araujo. 

A vertente afro-cubana, que é mais presente no Estado do Rio de Janeiro, foi a inspiração da Paraíso do Tuiuti para o enredo Lonã Ifá Lukumí. O termo Lonã significa caminho; Ifá, a sabedoria, o oráculo de conhecimento sagrado; e Lukumí foi o nome dado aos descendentes dos iorubás em Cuba.

Os iorubás constituem um dos maiores grupos étnicos da África Ocidental. Segundo a professora, “o Ifá, religião estabelecida em ramas (casas), cultua o orixá Orumilá e tem como autoridades os sacerdotes designados Babalaôs e Yanifas, que interpretam os saberes e orientações de Olodumare, deus único do povo iorubano, na leitura dos oráculos com a interpretação de Orunmilá e a comunicação e entrega de Exu”.

O Sistema Divinatório de Ifá é considerado pela Unesco como um dos Patrimônios Imateriais da Humanidade.

Livro

A tese Sistema Filosófico de Ifá está sendo transformada em livro com o mesmo título. A apresentação da obra, a ser lançada pela editora Barlavento neste primeiro semestre, é assinada pelo filósofo, professor e babalaô Luiz Rufino, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

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