Quem aprendemos a considerar bonito? Que tipos de pele, cabelo, rosto e corpo costumamos associar à beleza? Essas referências não surgem apenas diante do espelho. Desde a infância, elas também são construídas pelas imagens que circulam na televisão, no cinema, na publicidade, nas redes sociais e em outros espaços da vida cotidiana. Para pessoas negras, esse aprendizado passa também por uma história de desvalorização, estereótipos e pouca representação de determinados traços e corpos.
Essas questões conduzem a primeira reportagem da série Isso também é Consciência Negra!, que integra a programação da Secretaria de Comunicação (Secom/Ufes) para o Mês da Consciência Negra. Para discutir a construção dos padrões de beleza e seus efeitos sobre a população preta e parda, a reportagem ouviu duas integrantes do Banco de Fontes Negras da Ufes: a pesquisadora Dyone Arruda, mestre em Comunicação e Territorialidades e integrante do grupo de estudos Mulheres na Ciência, que investiga representações produzidas pela mídia; e a professora do Departamento de Psicologia Social e do Desenvolvimento Pollyana Moreira, que analisa a construção dos padrões de beleza.
Dyone Arruda observa que, historicamente, pessoas negras foram representadas nas produções audiovisuais em papéis de subalternidade ou de apoio a protagonistas brancos. Entre as mulheres negras, ela identifica personagens associadas ao trabalho doméstico, à hipersexualização, à agressividade ou à obrigação de demonstrar força permanentemente. Sobre esse último ponto, ela ressalta: “Esse estereótipo invalida os sentimentos e as indignações legítimas de mulheres negras, desumanizando suas emoções e retirando-lhes o direito à fragilidade ou ao acolhimento”.
As representações analisadas por Arruda encontram na Psicologia Social uma discussão mais ampla sobre como determinados atributos passam a ser valorizados. Integrante da equipe de pesquisadores do Observatório Nacional dos Preconceitos (INCT-Preconceitos), a psicóloga Pollyana Moreira explica que os padrões de beleza não resultam apenas de preferências individuais, mas também das relações de poder entre grupos. Segundo ela, aqueles que historicamente ocupam posições de maior poder social influenciam a definição das características consideradas positivas.
No Brasil, a professora relaciona esse processo à história das relações raciais e à inferiorização da população negra durante a escravização. “Estabeleceu-se que tudo que era belo, bom e moralmente correto, em diferentes esferas da sociedade, estaria associado a pessoas brancas”, destaca. Para Moreira, essa hierarquização ultrapassa a aparência e alcança outros espaços da vida social.
Quem cabe no padrão?
Arruda identifica diferenças também nas próprias representações de pessoas negras e, para ela, ampliar a presença não significa, necessariamente, ampliar a diversidade. “Embora existam avanços, a tonalidade da pele ainda é uma questão. O tipo de cabelo e a fisionomia ainda atuam como ‘filtros de acesso’ que determinam tanto a quantidade de visibilidade quanto a qualidade dos papéis e narrativas destinados às mulheres negras”, afirma. A pesquisadora relaciona esse processo ao colorismo e aponta maior espaço para mulheres negras de pele mais clara e traços mais próximos do padrão estético hegemônico.
Moreira explica que esses padrões são aprendidos ao longo da socialização: “Percebemos que há pessoas fisicamente semelhantes a nós e pessoas fisicamente diferentes de nós, e assim entendemos que fazemos parte de um grupo e não de outros. No decorrer do processo de socialização, e com a participação em diferentes grupos sociais, esses padrões sobre o que é socialmente aceito como bom, bonito ou moralmente correto são aprendidos e perpetuados”.
A professora dá como exemplo uma menina negra que ouve comentários depreciativos sobre o cabelo crespo. “Enquanto criança, ela não entende que há nesse comentário uma inferiorização que não é exatamente sobre ela, mas sobre o grupo do qual ela faz parte, e pode tentar não ter o cabelo crespo para se aproximar do cabelo visto como bonito”, explica.
Novas imagens, outras referências
As referências, no entanto, não permanecem necessariamente as mesmas ao longo do tempo. Ao comparar as imagens de hoje às que encontrou na própria infância, Arruda lembra que havia poucas bonecas negras e poucos profissionais negros em posições de destaque, além de menor presença de cabelos crespos naturais, black power e tranças. “Hoje, ser uma mulher negra é evidência, é beleza, é poder ser uma pessoa incrível, pois o mundo em que vivemos não facilita. Eu cresço como uma mulher negra a cada dia, aproveitando cada processo do meu viver”, destaca.
Moreira analisa como a presença de outras referências pode repercutir sobre a percepção de possibilidades de ascensão e reconhecimento social entre a população negra: “Ver pessoas negras apresentando telejornais de abrangência nacional, sendo protagonistas de novelas e tendo ascensão social por meio do estudo, tornando-se doutoras em suas áreas, faz com que todas as demais pessoas do grupo percebam que esses lugares de destaque social também podem ser ocupados por elas”.
Para a professora, essas referências podem interferir também naquilo que uma pessoa imagina para si. “Ser visto em lugares e situações que antes eram pensadas como impossíveis de se alcançar faz com que as pessoas planejem um futuro diferente e em lugares de poder social”, conclui.
Imagem principal: Magnific
Fotos das professoras: Adriana Damasceno
Universidade Federal do Espírito Santo