“Apesar de sermos mais da metade da população no Brasil, as mulheres não chegam a um quarto dos sujeitos e das fontes das notícias na grande imprensa. Isso diz que existe um apagamento das ações das mulheres como especialistas e produtoras de sentido”. A avaliação é da professora Patrícia D'Abreu, do Departamento de Comunicação da Ufes, que coordenou o monitoramento da região Sudeste do Global Media Monitoring Project (GMMP) Brasil 2025 (Projeto Global de Monitoramento da Mídia - Brasil 2025), a maior pesquisa longitudinal do mundo dedicada a monitorar a representação de gênero na mídia jornalística.
O apagamento, segundo D’Abreu, é uma constante no Sudeste, no Brasil, na América Latina e no mundo. Os resultados do monitoramento em nível nacional serão apresentados em evento on-line na próxima segunda-feira, 30, e na terça, 31, com uma programação de mesas temáticas (veja ao final do texto). O evento será aberto ao público e transmitido por meio do canal @DiversidadenaECA, no Youtube. Clique aqui para mais informações sobre o evento.
Grande mídia
O monitoramento não traz corte estadual, apenas regional e nacional. Foram analisados conteúdos de 683 notícias de 38 veículos da grande imprensa no Brasil, sendo dez jornais impressos, oito emissoras de televisão, 12 sites noticiosos e oito emissoras de rádio. “De cada quatro fontes especializadas, apenas uma é mulher. Quando analisamos interseccionalidades como raça, classe e identidade de gênero, esse número cai vertiginosamente”, afirma a professora.
Dentre os resultados do Brasil, o monitoramento constatou que a participação feminina diminuiu, em 2025, em todas as funções elencadas nas notícias. Na função de sujeito, que são as pessoas retratadas como centrais, ou seja, que o texto trata sobre elas ou algo que fizeram ou disseram, apenas 19% foram mulheres. Já os homens exerceram, na mesma função, papeis de protagonismo em 81% das notícias.
Entre as pessoas que falam em nome de grupos ou organizações (porta-vozes), apenas 22% são mulheres. Elas também são apenas 21% das pessoas ouvidas como especialistas ou comentadoras. A presença delas, na maioria das vezes, se dá como expressão da opinião popular (32%), testemunhas oculares de algum fato (35%) ou como personagem de relato de experiências pessoal (42%).
De acordo com o último Censo do IBGE, o Brasil tem seis milhões de mulheres a mais do que homens, resultando em um percentual de 51,5% da população do sexo feminino. Ainda assim, “não aparecemos [na mídia] como especialistas, produtoras de conhecimento, estudiosas, economistas. E há uma incidência notável de mulheres associadas a algum vínculo familiar, sempre são mães, filhas e esposas. Esse é um dado preocupante, que mostra um preconceito e o apagamento de gênero”, afirma a pesquisadora.
Ela destaca que, no contexto atual, de aumento das violências contra as mulheres e de grupos que pregam a misoginia, o tratamento dado às mulheres na mídia torna-se ainda mais preocupante. “Como o jornalismo é um discurso socialmente autorizado sobre a realidade, se ele incorre nesse apagamento e encarceramento das mulheres nos lugares de mãe, esposa e filha, isso reforça os preconceitos e as dificuldades que a gente vive diariamente”.
Histórico
O GMMP é realizado a cada cinco anos, desde 1995, com o objetivo de analisar como mulheres e homens aparecem — ou deixam de aparecer — nas notícias. Ao longo de 30 anos, o GMMP recolheu dados de mais de 160 países. A participação do Brasil na pesquisa começou em 2020.
Em 2025, a professora da Ufes coordenou o trabalho de 40 pesquisadores do Sudeste, incluindo profissionais da Universidade de São Paulo (USP), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), e jornalistas da Folha de São Paulo e da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Na Ufes, além da professora, duas graduandas participaram do projeto.
Conheça a programação das mesas temáticas:
30 de março
9h30 – Mesa 1 – Resultados GMMP Brasil 2025
A mesa abre o evento com a apresentação dos dados nacionais, destacando como as mulheres são representadas nas notícias e quais são os padrões de desigualdade que persistem. Além da coordenação nacional, participam também representantes de entidades e coletivos que atuam na defesa das políticas de igualdade, ampliando o diálogo entre pesquisa e sociedade civil.
14h30 – Mesa 2 – Comunicação e políticas públicas
Aborda a necessidade de políticas públicas que ampliem a presença das mulheres na vida pública e, consequentemente, nas notícias. Os dados do GMMP evidenciam que mulheres aparecem majoritariamente como vítimas de violência — especialmente violência de gênero — e que a cobertura midiática ainda é incipiente e marcada por estereótipos. A mesa discutirá caminhos para políticas efetivas de equidade de gênero e enfrentamento das violências de gênero e étnico-raciais.
31 de março
9h30 – Mesa 3 – Ensino e pesquisa em jornalismo, atravessamentos e representatividade de gênero
A partir do pensamento feminista e dos resultados do GMMP, a mesa discute como o gênero atravessa o ensino e a prática jornalísticos. Serão abordados critérios de noticiabilidade, seleção de fontes, interseccionalidade, visibilidade das mulheres e os sentidos de participação e representação nos conteúdos jornalísticos.
14h30 – Mesa 4 – Boas práticas em Jornalismo
Encerrando o evento, a mesa reúne experiências e reflexões sobre práticas jornalísticas comprometidas com a equidade de gênero e o feminismo interseccional. O debate inclui marcadores sociais como raça, classe, orientação sexual e deficiência, além de análises críticas de coberturas sobre violência de gênero e violência política de gênero.
Universidade Federal do Espírito Santo