Exposição de cerâmica, café da manhã compartilhado, oficinas, música, roda de conversa e um encontro de culturas prometem transformar o Centro de Artes (CAr/Ufes) em um grande espaço de convivência e trocas nesta quinta-feira, 28, durante a quarta edição do Dia do Ceramista na Ufes. A grande novidade dessa celebração será a participação da comunidade cigana Calon, de Cariacica, que estará pela primeira vez na Universidade apresentando elementos de sua cultura, produções artísticas e modos de vida ao público capixaba.
A programação acontecerá no Laboratório de Cerâmica da Ufes (sala 5 do Cemuni 4) e no entorno do CAr (campus de Goiabeiras), das 8 às 21 horas. O evento é gratuito e aberto a todos os públicos.
Promovido pelo Laboratório de Cerâmica, em parceria com a Associação de Ceramistas do Espírito Santo (Cerames) e com o projeto de extensão Percursos da Cerâmica Capixaba, o evento é organizado pela professora do Departamento de Artes Visuais Isabela Frade. Ela explica que o Dia do Ceramista já se consolidou como um espaço de encontro entre artistas, estudantes e admiradores da arte cerâmica: “É um evento muito animado. A gente mostra a presença da cerâmica dentro da Universidade e a força desse campo no Espírito Santo, que tem muitos artistas e uma produção muito ativa”.
Ela acrescenta que a celebração também abre espaço para reflexões sobre pertencimento, circulação cultural e diversidade étnica no Espírito Santo e destaca que a presença inédita da comunidade cigana torna esta edição especialmente simbólica: “Muita gente nem sabia que havia comunidades ciganas no estado. Hoje percebemos o quanto o Espírito Santo é plural, com diferentes etnias e formas de viver. Os ciganos Calon estão muito invisibilizados. Historicamente, são grupos perseguidos e rejeitados, mas agora há uma busca por reconhecimento, por pertencimento e por uma vida digna. A universidade também precisa participar desse processo e aprender com essas experiências”.
Presença cigana
A Feira Calon contará com apresentações culturais, conversa com a comunidade cigana, desfile de moda étnica, exposição dos primeiros trabalhos produzidos em cerâmica pelas mulheres Calon e um café da manhã coletivo. A ação faz parte do projeto de pesquisa e extensão Arte Relacional nos Acampamentos Ciganos Calons Capixabas, desenvolvido pela doutoranda Déborah Sathler no Programa de Pós-Graduação em Artes (PPGA/Ufes).
Orientadora da pesquisa, Frade destaca que o trabalho começou a partir de uma aproximação entre a Ufes, a Prefeitura de Cariacica e serviços de assistência social que acompanham famílias Calon acolhidas no município, como a Casa Lilás. De acordo com a professora, a proposta busca desenvolver práticas artísticas e ações ligadas à economia criativa, respeitando os modos de vida da comunidade.
Sathler explica que sua pesquisa busca reconhecer e fortalecer práticas culturais historicamente invisibilizadas: “Maio é o mês dos povos ciganos. Então, conectamos esse trabalho de campo à pesquisa que venho desenvolvendo desde o mestrado. As mulheres ciganas Calons existem e resistem. A gente precisa reconhecer e reverenciar suas artes invisibilizadas”.
Segundo ela, as mulheres Calons sempre atuaram como “empreendedoras culturais”, preservando saberes transmitidos entre gerações. “Elas vivem das artes, seja por meio da leitura de sina, da leitura das mãos, seja pela costura tradicional Calon, que continua preservada nos acampamentos. Agora, a cerâmica passa a integrar esse processo de fortalecimento identitário”, explica.
A pesquisadora destaca, ainda, que o trabalho é construído de forma colaborativa, respeitando os conhecimentos já existentes na comunidade. “Arte relacional é justamente isso: trabalhar nos diálogos comunitários, considerando os saberes que elas já têm”, conclui.
Fotos: Déborah Sathler
Universidade Federal do Espírito Santo