Ufes participa de pesquisa internacional para produção de teste rápido para toxoplasmose

21/05/2021 - 16:50  •  Atualizado 01/11/2022 09:16
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O Programa de Pós-Graduação em Doenças Infecciosas (PPGDI) da Ufes está participando da produção de um aparelho de detecção rápida da toxoplasmose em animais e humanos. O estudo é desenvolvido em parceria com o Departamento de Parasitologia do Kimron Veterinary Institute (KVI) do Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural de Israel, com o Instituto Weizmann de Ciência (IWC) do mesmo país e com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

A doença, provocada pelo protozoário Toxoplasma gondii, pode ser transmitida a humanos por meio das fezes de felinos, entre eles os gatos, ou pelo consumo de carnes contaminadas de bovinos, suínos, caprinos ou aves, entre outros animais, de forma crua ou mal passada. Quando a gestante tem ou teve a doença, pode transmiti-la ao bebê e causar complicações ao desenvolvimento da criança, se não houver tratamento adequado. 

A colaboração internacional teve início com a participação da professora do PPGDI Blima Fux, no Congresso Internacional de Parasitologia, sediado IWC, em janeiro de 2018, quando apresentou um estudo sobre toxoplasmose em galinhas das zonas rurais do Espírito Santo. A pesquisa chamou a atenção dos israelenses, que não tinham trabalhos nessa área e, em 2020, a professora voltou a Israel para participar de um treinamento como pesquisadora visitante no KVi pelo Programa Institucional de Internacionalização (PrInt) da Ufes, financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), dando início à pesquisa referente ao aparelho de detecção rápida da toxoplasmose.

Segundo a pesquisadora da Ufes, o teste rápido representa mais controle da qualidade dos alimentos em Israel, já que a nação importa a maioria das carnes que consome. No país, de maioria judaica, a carne deve ser Kasher, ou seja, totalmente limpa e adequada aos padrões definidos pela Torá, livro sagrado dos judeus, para o abate e a criação de animais em busca de uma alimentação nutritiva para o corpo e a alma. Apesar de contar com um rigoroso controle da carne, o governo enfrenta dificuldades no combate da toxoplasmose, uma vez que não é perceptível a olho nu.

Diagnóstico rápido

Na viagem a Israel, Blima Fux foi treinada para usar um aparelho de análise de rastreamento de nanopartículas (NTA, sigla em inglês), juntamente com as pesquisadoras Mônica Mazuz, coordenadora do KVI; Nata Regev-Rudzki, do IWC; e Ana Cláudia Torrecilhas, da Unifesp. A máquina codifica e verifica as concentrações das partículas de vesículas extracelulares. 

O objetivo das quatro pesquisadoras, agora, é produzir um teste capaz de detectar a toxoplasmose de forma mais rápida. “No Brasil, temos um NTA na Unifesp e iremos coletar partículas, buscando idealizar um teste de infecção por essa doença, de forma a agilizar o diagnóstico. O cuidado com os animais relacionados a esse parasita terá uma orientação mais ligeira”, detalha a professora da Ufes. 

A cooperação com Israel via Capes-PrInt busca a realização de pesquisas envolvendo universidades de outros países, com intercâmbio de pesquisadores e participação em eventos. Dentro desse estudo sobre a toxoplasmose, está previsto o envio de alunos a Israel, após a pandemia. “O contato com outros países é de grande contribuição para o conhecimento educacional deles”, avalia Blima Fux.

A colaboração com a pesquisadora Ana Cláudia Torrecilhas rendeu ainda um artigo sobre as vesículas extracelulares produzidas por Acanthamoeba, um microorganismo de vida livre que pode causar lesão ocular. As vesículas extracelulares foram produzidas a partir de cepas de diferentes genótipos e no estudo, que foi publicado em janeiro deste ano na revista norte-americana Frontiers in Cellular and Infection Microbiology, foram feitas comparações considerando a resposta imunomoduladora de cada um. 

Pesquisas e uso no Brasil

Enquanto em Israel o foco é o melhoramento da carne, no Brasil a questão principal é a saúde pública, já que em nosso país não há um rigor tão grande com as carnes de consumo. A intenção das pesquisadoras é de que, aqui, seja feito um trabalho epidemiológico para evitar a proliferação de casos e suas consequências, levando à população o conhecimento sobre a criação de animais e sobre a preparação correta da carne.

Um dos locais onde será feito esse trabalho é o município de Venda Nova do Imigrante, na serra capixaba, que conta com grande presença da toxoplasmose. Um estudo anterior da Ufes verificou uma associação entre a doença e a lesão ocular nessa localidade. Um outro, realizado em 2016 e publicado na Revista de Parasitologia Veterinária, identificou a recombinação de cepas (no Brasil existem os tipos I, II e III) do Toxoplasma Gondii em galinhas caipiras. 

“A toxoplasmose é um problema de saúde pública que atinge a população mundial. No Espírito Santo não é diferente, mas precisamos de um trabalho de campo para melhor entendimento de como está a distribuição. Ainda temos poucos estudos aqui no estado”, analisa Blima Fux. Ela aponta que a doença também pode afetar economicamente os criadores de animais, por ter potencial para causar a morte de algumas espécies.

Saiba mais sobre esta e outras pesquisas desenvolvidas pela Ufes no site da Revista Universidade.


 

Texto: Mikaella Mozer (bolsista em projeto de Comunicação)
Foto: myglesias/CC
Edição: Thereza Marinho e Lidia Neves