Dois estudos da Ufes investigam as condições de dignidade nas relações profissionais e as barreiras que ainda marcam as trajetórias profissionais de muitas mulheres. As investigações são conduzidas no Grupo de Pesquisa e Extensão Carreiras Contemporâneas e Justiça Social (CareLab) e analisam fatores que influenciam o acesso a ambientes de trabalho mais justos, respeitosos e favoráveis ao desenvolvimento das mulheres.
A divulgação das pesquisas integra a série especial Ufes por Elas: iniciativas que transformam vidas de mulheres capixabas, que apresenta projetos de pesquisa e extensão da Universidade voltados à promoção da equidade de gênero e ao enfrentamento das desigualdades (veja abaixo outras matérias da série).
Coordenado pelo professor do Departamento de Psicologia Alexsandro de Andrade, o grupo desenvolve estudos voltados à compreensão das desigualdades no mundo do trabalho, com ênfase em gênero, raça e fatores estruturais que impactam trajetórias profissionais. Na avaliação de Andrade, ainda existem diversos obstáculos ligados ao desenvolvimento profissional feminino: “Mulheres ainda enfrentam barreiras estruturais que limitam sua autonomia, reconhecimento e progressão na carreira, especialmente em contextos marcados por desigualdades históricas e culturais”.
Uma dessas investigações é conduzida pela servidora técnico-administrativa Marianna Veras, no âmbito do mestrado em Gestão Pública. Intitulado "Dignidade no Trabalho dos Servidores Públicos da Educação Federal", o estudo analisa fatores organizacionais e sociodemográficos que podem favorecer ou comprometer relações profissionais pautadas pelo respeito e pela valorização. Segundo a pesquisadora, compreender esses elementos é fundamental para promover ambientes institucionais mais saudáveis e equilibrados.
Embora investigue a experiência de servidores de forma ampla, o estudo também lança luz sobre desafios enfrentados por mulheres no ambiente profissional. Situações como desvalorização profissional, deslegitimação de autoridade e episódios de assédio moral ou sexual estão entre os fatores que, segundo Veras, podem impactar a percepção de reconhecimento e respeito no trabalho. “Ao abordar essas questões, o projeto possibilita identificar situações de tratamento desrespeitoso, estimular a autorreflexão sobre comportamentos ou comentários que possam gerar sofrimento e contribuir para que lideranças estejam mais preparadas para lidar de forma adequada nesse contexto”, avalia.
A partir dos resultados obtidos, a proposta é desenvolver um material didático e instrucional voltado à conscientização da comunidade acadêmica e da sociedade sobre a importância de relações profissionais baseadas no respeito e na dignidade. A iniciativa pretende contribuir para ampliar o debate institucional sobre o tema e estimular a construção de ambientes de trabalho mais respeitosos e seguros.
Desenvolvimento de carreira
Outra pesquisa vinculada ao grupo investiga as relações entre dignidade no trabalho, desenvolvimento de carreira e justiça social. Conduzido pela pós-doutoranda Mariana Melo, o projeto "Trabalho Decente e Digno: Estudos sobre Carreira pela Psicologia do Trabalhar" analisa como fatores individuais e contextuais influenciam o acesso a condições de trabalho decentes e dignas ao longo da trajetória profissional de mulheres. Dentre os aspectos investigados, estão barreiras de carreira, suporte social e o desenvolvimento da chamada “consciência crítica”, elemento associado à capacidade de compreender e enfrentar desigualdades estruturais no mundo do trabalho.
Os estudos dão continuidade a uma agenda de estudos iniciada pela pesquisadora ainda no mestrado, realizado também na Ufes. Na época, as análises identificaram que estudantes mulheres da área de negócios percebiam como principais obstáculos para o desenvolvimento profissional a falta de suporte, a discriminação sexual, a discriminação étnica e a restrição de oportunidades de carreira. “Mais recentemente, meus estudos passaram a destacar a centralidade do trabalho decente como elemento fundamental para desenvolvimento de carreira”, ressalta.
Atualmente, o projeto analisa experiências de mulheres que atuam em áreas de STEM (sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), campos historicamente marcados pela baixa representação feminina. Até o momento, as pesquisas vinculadas a essa agenda de pesquisa já contaram com a participação de mais de mil mulheres, provenientes de diferentes áreas profissionais, regiões do país e contextos sociais. Dentre os achados, destaca-se a importância do suporte social (especialmente no ambiente familiar e no local de trabalho) para reduzir os efeitos das barreiras na carreira e fortalecer a confiança profissional das mulheres.
Segundo Melo, os dados coletados permitem compreender os processos que geram dificuldades na trajetória das mulheres e identificar fatores essenciais para garantir sua permanência em postos de trabalho saudáveis. “Do ponto de vista prático, as evidências geradas também podem subsidiar organizações na implementação de práticas mais eficazes para promover a dignidade no trabalho e apoiar mulheres em contextos de exposição a riscos psicossociais e em situações de vulnerabilidade”, avalia.
As pesquisas contam com apoio de agências de fomento, como a Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Além de Veras e Melo, as doutorandas Juliana Nascimento e Juliana Nunes também integram o grupo, que inclui ainda mestrandos e graduandos bolsistas de Iniciação Científica e de projetos de extensão. Mais informações sobre as pesquisas desenvolvidas pelo CareLab podem ser acessadas no site https://carreira.ufes.br/.
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Fotos: Freepik e CareLab/Ufes
Universidade Federal do Espírito Santo