"Queremos ter a liberdade de decidir o que nos faz feliz". Com essa frase, a reitora da Universidade Federal do Sul da Bahia, Joana Guimarães, resumiu a ideia central do evento Sobre Mulheres e Feito por Mulheres, realizado nesta terça-feira, 24, no Teatro Universitário, com o propósito de refletir sobre a visibilidade da produção acadêmica, científica, artística e política das mulheres da universidade. Guimarães proferiu a conferência de abertura sobre o tema Mulheres na Ciência: Desafios, Conquistas e Perspectivas na Universidade Pública Brasileira, e abordou como as escolhas femininas são, na maioria das vezes, pautadas por imposições e pré-conceitos sociais.
O evento, coordenado pela vice-reitora da Ufes, Sonia Lopes, contou com a presença da secretária estadual das Mulheres, Jacqueline Moraes; da presidente da mesa diretora do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Mulher do Espírito Santo (Cedimes), Thâmara Trancoso; da vereadora de Cariacica Açucena; da representante da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência Maria José Pontes; da representante do Núcleo de Direitos Humanos da Defensoria Pública do Espírito Santo Gabriela Lopes; da diretora do Centro de Ciências Agrárias e Engenharias do campus de Alegre, Louisiane de Carvalho; da secretária de Ações Afirmativas e Diversidade da Ufes, Patrícia Rufino; e da professora do Departamento de Línguas e Letras Jeffa Santana.
Gestores da Ufes, docentes, técnicas e técnicos-administrativos, pesquisadores e estudantes também participaram da programação, que contou com apresentação cultural da artista Bruna Perê, exposição, conferência, mesas e rodas de conversa.
Enfrentamento às violências
Em sua fala, a vice-reitora destacou que o evento se insere em uma agenda institucional da Ufes, comprometida com o enfrentamento às violências de gênero e com a promoção de uma cultura de respeito, equidade e direitos. “Recentemente, lançamos na Universidade a campanha do Banco Vermelho, uma ação simbólica e educativa que integra uma mobilização nacional de enfrentamento às violências contra as mulheres. Estamos cansadas de manifestações de solidariedade, a gente quer ação, políticas públicas”, clamou.
Alinhada à fala da vice-reitora, Joana Guimarães assinalou que a mulher se empoderou do ponto de vista de estar presente em muitos espaços, entre os quais a academia, mas a alta taxa de feminicídios que o país atravessa deixa um recado.
“A onda de feminicídio que estamos enfrentando hoje significa dizer o seguinte, ‘vocês nos pertencem, seus corpos são nossos’. Os homens estão dizendo isso para gente: ‘vocês não podem sair por aí querendo ser independentes’. A gente avançou, nos empoderamos, mas estamos com uma grave epidemia no Brasil, não tem um único dia que você abra um jornal que não tenha um feminicídio, uma agressão a uma mulher”, lamentou.
"Precisam aceitar?"
A secretária estadual das Mulheres propôs que o público se atentasse a uma dimensão que, nas palavras dela, "passa batida": a forma como as histórias das vítimas de violências de gênero são narradas, na maioria das vezes, enfatizando que a violência foi cometida pelo fato de o homem não aceitar o fim da relação.
“Será que eles precisam aceitar? Porque estamos repetindo isso todos os dias, com muita frequência. O que aparece são espetáculos, justificativas como o ciúmes e questionamentos sobre o comportamento da vítima. Esse formato está ajudando a enfrentar o feminicídio ou, de alguma maneira, está normalizando, e até inspirando, outros homens a seguir o mesmo roteiro?”, refletiu.
O pró-reitor de Políticas de Assistência Estudantil, Antônio Carlos Moraes, participou do evento e classificou como urgente a necessidade de os homens se engajarem na luta. “Ou o homem se engaja, ou vamos viver um processo, cada vez mais contínuo, de desqualificação do homem. As mulheres não estão dormindo, elas estão se protegendo e se mobilizando cada vez mais. Um dia, a gente pode vir a ter uma vida sem interação entre homens e mulheres, devido a essa selvageria. Os homens podem chegar a um ponto de serem evitados no meio social”, observou.
No período da tarde, mesas temáticas discutiram a participação e os desafios enfrentados por cientistas e pesquisadoras nas diferentes áreas: Ciências Humanas, Educação e Ciências Sociais Aplicadas; Ciências da Saúde, Biológicas e Ambientais; Ciências Exatas, Engenharias e Tecnologias; e Artes, Linguagens e Produção Cultural.
No final da tarde, uma roda de conversa mediada pela pró-reitora de Graduação, Regina Godinho, abordou o tema Trajetórias de Mulheres na Ciência.
Fotos: Mariana Simões e Thereza Marinho
Universidade Federal do Espírito Santo